Já tive discussões com jornalistas, a propósito das unidades de medição da energia eléctrica.
Em inúmeros orgãos de comunicação social, da imprensa escrita à televisão, ocorre frequentemente o erro de se aplicar as unidade de kW/h (ou, por extenso, quilowatt/hora), MW/h (ou megawatt/hora), e GW/h (ou gigawatt/hora), para classificar a quantidade de energia produzida por determinada central de produção eléctrica, durante um determinado período de tempo, ou uma qualquer energia eléctrica consumida ou gerada.
Desta vez, é no Diário de Notícias de hoje, 7 de Julho de 2006, no seu suplemento de economia e a propósito da fase final do concurso para as centrais eólicas.
Os artigos sobre o tema são assinados por dois jornalistas, cujos nomes não refiro.
Na página 3 daquele suplemento, aparece a unidade correcta - GWh, de gigawatt-hora, 10 elevado a 9, ou mil milhões de Watts-hora - mas, já na página 4, aparece o seguinte erro, que eu assinalo em tom mais carregado:
"... que vai ter uma potência de 240 megawatts. A produção bruta anual [de energia, digo eu] será de 667
gigawatts/hora (GWh/ano), ... ", no texto intitulado "Investimento de 343 milhões em parque eólico no Alto Minho".
Ora, as unidades de potência mais usuais, porque há múltiplos ainda maiores do que estes, são kW (quilowatt, milhares de Watts), MW (megawatt, milhões de Watts), ou GW (gigawatt, milhares de milhões de Watts).
As unidade de energia são kWh (quilowatt-hora), MWh (megawatt-hora), ou GWh (gigawatt-hora), e nunca kW/h, quilowatt/hora, MW/h, megawatt/hora, GW/h, ou gigawatt/hora.
E geralmente usa-se o hífen para reflectir a forma como se diz a unidade. Mas nunca a barra, pois esta representa uma divisão de unidades.No texto, o erro é o de se designar a energia por gigawatts/hora, que deveria então ser escrito como GW/h, embora, depois, a unidade GWh aplicada esteja bem.
Nos vários textos sobre o tema, repete-se o erro de se classificar com a unidade de gigawatts/hora, as energias produzida num ano, quando o que deveria ser escrito seria gigawatts-hora, ou até gigawatts hora, sem hífen.
Mesmo assim, os dois jornalistas, neste caso, falharam por pouco. Já vi e ouvi pior.
É simples de explicar: a energia é, grosso modo, a potência multiplicada pelo tempo (mais precisamente, é o integral, no tempo, de uma potência, mas este conceito não é de conhecimento obrigatório) no qual ela é gerada, ou consumida.
Assim, uma central eólica com 240 MW de potência (M de mega, 10 elevado a 6, um milhão, W de Watt), produziria uma energia anual de 240 MW x 24 horas/dia x 365,25 dias = 2 103 840 MWh, ou seja, por volta de 2104 GWh, ou 2104 gigawatts-hora, com a unidade escrita por extenso. Digamos, uma energia de 2104 GWh num ano, ou mesmo 2104 GWh/ano.
Se escrevessemos erradamente 2104 gigawatts/hora, usando a barra em vez do hífen, estávamos a falar da divisão de uma potência por um tempo, em vez do que se pretendia, que era falar duma energia, a qual corresponde à multiplicação duma potência por um tempo.É claro que a produção expectável é só de 667 GWh, num ano, como mencionam os dois jornalistas, valor inferior àquela minha conta anterior, porque a central nunca estará sempre a produzir à sua potência nominal de 240 MW, porque há, entre outros factores, alturas em que o vento terá uma intensidade mais fraca.
Dois exemplos mais comuns:
Suponha o uso do seu ferro de engomar. O cá de casa tem uma potência de 2000 W, ou seja, 2 kW (2 quilowatts). Se eu o usar durante 5 horas, para passar bastante roupa, consumirei a seguinte energia máxima: 5 horas x 2 kW = 10 kWh (10 quilowatts-hora). (Note que o ferro não está sempre a consumir durante todo o tempo das 5 horas. Ele liga e desliga, conforme a temperatura é insuficiente ou igual à desejada. Basta ver o acender e o apagar da sua luzinha. Por isso, o valor real vai ser menos. Talvez, por volta da metade).
Se eu consultar a factura da EDP, vejo que ela será debitada na minha conta bancária ao preço de 0,1011 Euros por kWh (sem IVA), ou seja, gastarei, porque são 10 kWh, 1,011 Euros, aproximadamente 1 Euro, por aquela passagem de roupa. Talvez por volta da metade desse valor, conforme aquela explicação do ligar e do desligar do ferro.
Na vossa factura da electricidade, aparece bem claro, no quadro do consumo, a unidade mencionada de kWh, mas nunca kW/h, como já vi em erros mais graves.
Já agora, suponhamos o caso de uma lâmpada de 100 W. Para gastar a mesma energia do que aquela passagem de roupa, 10 kWh, ela precisava de estar acesa durante 100 horas (100 W = 0,1 kW; 0,1 kW x 100 horas = 10 kWh), o que dá 4 dias e 4 horas. Ou seja, um ferro de engomar, ou um aquecedor, gastam muito mais do que uma lâmpada.
Se aprenderem a fazer contas deste tipo, verão que até se torna engraçado.
Já tive uma discussão com um jornalista da SIC que não acreditou em mim, mesmo quando lhe sugeri a consulta da sua factura da EDP. A pessoa em causa insistia que era kW/h. E falava como se eu fosse um qualquer maluquinho, sem nada para fazer. Deveria estar a fazer a analogia com a velocidade, km/h. Para esta, há realmente uma divisão de unidades: consideram-se os quilómetros percorridos e o número de horas nos quais eles foram feitos, e divide-se os primeiros pelas segundas, obtendo-se a velocidade média da viagem.
O problema é que se está a deseducar os leigos, para além de transmitir uma péssima imagem a um leitor mais informado, nomeadamente estrangeiro.
Notem que, em minha opinião, até temos uma comunicação social de um nível francamente superior ao que se poderiar esperar, se atendêssemos aos nossos diversos indicadores de desenvolvimento.
Este tipo de erro é infelizmente tão comum, que já não envolve qualquer desconsideração.
A sua correcção é que seria um exemplo meritoso.
Para quem ainda assim não acredita, vejam-se estes artigos:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Quilowatt-horahttp://en.wikipedia.org/wiki/Kilowatt-hourNeste segundo texto, aparecem também referidas como unidades correctas o
kW h (com espaço entre a potência e o tempo), ou ainda
kW.h (com o ponto da multiplicação entre a potência e o tempo). Estas últimas formas até poderão ser as mais correctas, mas os documentos da EDP usam aquelas que eu expliquei, que são as mais usuais. Eu não quis aumentar a confusão neste texto com a explicação das três possíveis variantes destas unidades.
Texto reformulado a 13/07/2008.